17 setembro 2007

Despedidas



Há mais de cinco anos minha vida é marcada por chegadas e partidas. Lágrimas de alegria, lágrimas de tristeza, saudade antecipada, alívio pela saudade a ser devidamente morta por momentos alegres, especialmente corriqueiros.

Em minhas andanças, algumas partidas são especiais. Minha primeira partida, em 07 de março de 2002, marcou minha entrada definitiva na vida adulta. Coincidentemente, um dia antes do Dia da Mulher. Abre parênteses: fiquei *mocinha* um dia após o dia das crianças... simbólico, né? Fecha parênteses.

Naquele março de 2002 eu viajava para Belém pela primeira vez, rumo a uma vida que eu desejava, mas não fazia a menor idéia de como seria, até porque a única pessoa que eu conhecia na minha nova cidade era o meu orientador. No aeroporto, família, amigos, todos com o coração apertado, lágrimas e sorrisos no rosto. Um lindo cartão com algum dinheiro dentro (acho que um dos presentes mais carinhosos que já recebi de amigos), muitas recomendações de juízo e a certeza de que a porta de casa estaria aberta pra mim sempre, sob qualquer circunstância.

No avião eu chorava, morta de medo, de excitação, de curiosidade, de incerteza, de saudade da pequena Clara, de 6 meses apenas, minha paixãozinha abdicada em favor do sonho de fazer um mestrado e do cumprimento da promessa que fizera a mim mesma cinco anos antes: não ser uma profissional medíocre.

Várias despedidas se sucederam, em BH, quando vinha de férias e tinha que voltar para meu trabalho em Belém; em Belém, quando me rebelei contra a falta de respeito e em favor do amor próprio no final de 2004, já *mestre* e de novo apaixonada, desta vez por uma pessoa muito mais especial; de novo em BH, quando abri mão do conforto e da segurança da casa dos meus pais para ousar ser feliz com essa tal pessoa especial, sem ter certeza de quase nada, só de que eu merecia muito ser feliz.

Finalmente vim embora novamente, para BH, talvez na pior despedida de todas, em julho de 2006. De novo eu apostava no amor próprio, mas desta vez sem me rebelar contra nada, apenas muito pesarosa da maneira como as coisas se desenrolaram. Sei que esta foi a pior despedida porque era a única que eu realmente não queria, apesar de considerá-la necessária naquele momento.

No último sábado eu estava na rodoviária de São Paulo, vindo embora após um dia inteiro de curso. Ninguém para se despedir de mim. Nada sendo deixado para trás. Naquele momento éramos eu, minha mochila e meu olhar, agora seco, observando as despedidas alheias. Impossível não lembrar de minha última despedida, ali naquela mesma rodoviária, aguardando o mesmo ônibus, tentando sentir os últimos momentos da pele macia, do calor, do cheiro, vendo pela última vez o olhar da pessoa especial. Era 25 de março de 2007. Em meio à minha maior vivência carpe diem (viva cada momento como se fosse o último), tudo que eu pensava era "não quero mais me despedir".

Interessante que lembrar desses momentos de despedida produz em mim sentimentos de tristeza, mas não só... Serenidade e aceitação parecem se misturar a incômodo e desapontamento, esperança de viver situações diferentes, de realmente não voltar a viver despedidas dolorosas como essas últimas. Esperança de estar me despedindo a cada momento das tristezas que insistiam em me acompanhar há tanto tempo, e de só permitir agora que coisas boas me aconteçam...

Imagem: Edward Hopper - Compartimento C, Vagão - 1938

28 agosto 2007

El sol y la vida



Era um lindo dia, ensolarado e quente como há tempos não se via na região quase sempre gelada, de ventos fortes e cortantes. Os pássaros cantavam, pulando pelas diversas árvores que circundavam a grande casa. Era uma casa especial.
A bela jovem aguardava os pais na varanda da casa. De estatura baixa, longos cabelos loiros cacheados, pele rosada, naquele momento a jovem assemelhava-se a uma criança, frágil, assustada diante de eventos que não conseguia explicar. Os olhos grandes e inquietos pareciam buscar uma conexão entre a realidade visível, palpável, e aquela apenas sentida. Apenas. Suas perguntas tentavam, de maneira quase desesperada, encontrar pontos comuns entre seus sentimentos e os sentimentos das outras pessoas, como se quisesse negar a condição especial na qual se encontrava naquele momento.
Confusão, sofrimento, estranhamento, encantamento. Era o que os grandes e inquietos e úmidos olhos diziam ao mundo de cores, cheiros, sons, palavras e pessoas que insistia em fazer parte apenas da vida da jovem. Apenas.
A jovem estava repleta de si, repleta do outro, e ao mesmo tempo completamente esvaziada, desconjuntada, à parte do conjunto, do todo ao qual acostumara-se a viver ao longo de sua breve porém intensa existência.
O não-saber tomava conta da casa, das pessoas que a faziam especial. Naquele momento era preciso vestir o conhecimento adquirido com os livros, com os olhos, com as mãos, com os ouvidos. Era preciso, mais que isso, vestir, como uma segunda pele, os valores construídos a partir da vivência nos mais diversos ambientes. Era preciso tentar, sob a proteção de tão importantes vestes, amenizar o sofrimento da bela jovem de olhos inquietos.
Aquele lindo dia ensolarado e quente marcara a existência das pessoas da casa especial, que perceberam, naquele momento, de uma só vez, a grandiosidade de tudo aquilo que já estava se tornando corriqueiro.
Vívian Marchezini - 28 de agosto de 2007
Imagem: Frida Kahlo, El sol y la vida (1947)

24 agosto 2007

Cansada!



É isso aí... alguém por favor páre o mundo que eu quero descansar um pouquinho...
Tô morta!!!
Não tô reclamando! Mas é que as atividades estão muitas, o tempo pra dormir está pouco, o trabalho está pesado. Quero férias!!!

02 agosto 2007

Carpinejar


Consegui a cooperação do meu celular! Olha aí a foto que eu tirei com o Carpinejar no dia do Sempre Um Papo!

25 julho 2007

Novo olhar



Ontem fui ao salão, fazer minhas unhas. Estava precisando, depois de algumas semanas (quatro?) de cutículas grandes, unhas quebradas e restos de um esmalte propositalmente claro. Do meu pé eu não vou nem comentar, coitado...
Uma mulher vai ao salão por diversas razões: para se preparar para algum evento onde cara-de-todo-dia não combina, para se sobressair diante daquela colega deslumbrante e insuportável, para ser notada por outras pessoas, para encontrar com a amiga (no salão), para contar suas últimas aventuras (e desventuras) à manicure, cabelereira, recepcionista, "terapeuta"...
Uma visita ao salão funciona também como uma oficina, onde "a máquina" é levada para passar por alguns "reparos" necessários para o prosseguimento da viagem. Reparos na aparência e na auto-estima. Funciona como um auto-carinho, um cuidado para com alguém que, afinal de contas, você ama (ou deveria amar).
E então ontem, cercada de manicure e pedicure (homens, vocês não imaginam o quanto isso é bom!), olhei para frente e me vi refletida no espelho:
Cabelos presos num coque baixo despretensioso - tentativa de refrescar-me do calor atípico do inverno mineiro;
Meus pequenos brincos de borboleta, quase sempre comigo, fazendo companhia às pequeninas pedras de zircônia na tarefa (esta bem fácil) de embelezar minhas orelhas;
Camisa branca com alguns fru-frus;
Rímel leve nos olhos - agora sempre presente para espantar um pouco o aspecto freqüentemente cansado, fruto do trabalho intenso dos últimos meses;
Sobrancelhas alinhadas pelo rímel transparente, previamente arrumadas por mim mesma;
Bochechas naturalmente coradas por conta da breve caminhada sob o sol de meio-dia;
Boca nua.
E então me percebi bonita.
Isso pode parecer arrogante, metido, antipático, pouco modesto. Mas enxergar minha própria beleza foi um gesto importante para mim, pela minha história, pelo meu momento atual, pelas inúmeras comparações às quais me submeti e me submeteram, pela minha briga freqüente com meu espelho desde que me entendo por gente, pelos elogios que já ouvi e recusei por não acreditar neles.
Não que eu considere a beleza fundamental. Fui inclusive aprendendo a não considerá-la assim, para não me frustrar ainda mais. Mas confesso que ao me perceber bela começo a me ver um pouco mais completa, como se tivesse encontrado mais uma peça do quebra-cabeça.

18 julho 2007

Prosa poética




Ontem proporcionei a mim mesma um carinho: saí do trabalho e fui para o Palácio das Artes, assistir ao Carpinejar no Sempre um Papo! Desde a semana passada ouvi o rádio o anúncio sobre a presença do meu poeta-amigo em Belo Horizonte - e de graça!!! E então prometi a mim mesma: eu vou!

Foi um ótimo programa. Ouvir o Carpinejar recitando seus poemas, dando ainda mais vida às suas palavras já cheias de emoção, de sentimentos, de força, de leveza! Ver o poeta, o artista, mais uma vez expondo sua vida pessoal, seu cotidiano, de uma maneira absolutamente autêntica e poética, muito diferente daqueles artistas que abrem seus mega-apartamentos para a Caras, tão artificiais, tão controlados pelo mercado.

O que eu mais admiro no Carpinejar e na obra dele é sua capacidade de poetizar o cotidiano, de escancarar os sentimentos de maneira clara. Tão clara que a mim é quase como um espelho. Sinto quase tudo o que ele escreve, e em muitos momentos parece-me que ele se sentou comigo, bateu um longo papo, e logo em seguida foi escrever. Escrever sobre meus sentimentos.

A partir da fala do Carpinejar, ontem, pensei algumas coisas... Ele deu a seus dentes tortos a função de infantilizador de si mesmo (acho que isso foi um neologismo meu), uma característica física sua que o mantém com ares de criança... Comecei a repensar os meus dentes tortos, a re-significá-los. Gosto do meu ar infantil, do meu jeito menina ingênua - mulher vivida. Pensarei...

Outra coisa que me chamou a atenção foi a fala do Carpinejar sobre a visão subjetiva do poeta. "A realidade passa por mim, por você. O poeta só faz poesia daquilo que o toca". E então corroborou minha postura neste blog, que é de escrever sobre o mundo a partir do meu olhar, mesmo que esse mundo seja o meu, privado. Não me sentia obrigada a escrever grandes observações a respeito dos outros, de eventos políticos, economia, etc... agora sinto-me ainda menos.

Viva meus sentimentos... Neste momento, são eles que importam!

Obs.: eu ia colocar aqui a foto que eu tirei com o Carpinejar, mas meu celular se juntou com o computador contra mim... Fica pra outra vez! No lugar, coloquei essa janela...

13 julho 2007

Balanço


Esta semana completou um ano que voltei para BH.
Para mim essa não é uma data exatamente digna de comemoração, uma vez que marca principalmente o distanciamento físico entre o homem que amo e eu. Isso ainda dói, pois outros distanciamentos (piores que o físico) ocorreram de lá pra cá.
Julho marca então um certo retrocesso em minha vida pessoal. Voltei a morar com meus pais, voltei a ter que negociar coisas com meus irmãos, brigar, seguir regras que não as minhas... ser menos independente, ter menos espaço. Voltei a me sentir sozinha, carente, mesmo com a casa cheia de gente (aff!).
No entanto devo admitir que cresci sob alguns aspectos desde a minha mudança. Comecei a trabalhar em algo que realmente me gratifica, per si, tenho aprendido demais (psicologia, psicoterapia, psicopatologia), conheci pessoas novas, comecei a construir meu patrimônio (que agora é um pouco mais do que roupas e livros... tenho um computador!), perdi meu medo de dirigir, meu cabelo está crescendo... hehehe. Claro, a convivência com a Clara sempre me faz crescer. E me faz querer ser mãe, o que não é bom agora...
Tenho buscado me compreender mais, estar mais atenta a mim mesma, aos meus sentimentos, ao que gosto, ao que não gosto... continuo querendo a mesma coisa, ou a mesma pessoa, mesmo sob protesto de alguns. Isso ainda não consegui mudar, mesmo sabendo que eu preciso.

Essa semana um paciente me contou um sonho interessante: ele estava numa jaula, preso, numa situação bem aversiva. Ele estava com a chave na mão, mas não encontrava a fechadura...
Imagem: Femme tenant un livre, Pablo Picasso, 1932

11 junho 2007

Dor



Dor, dor, dor...
Em cada célula do meu corpo
Em cada palavra pensada
Em cada situação imaginada

Dor, dor, dor...
Pelos momentos felizes
Pelos rumos tomados
Antes, agora, depois

Dor, dor, dor...
Pelos esforços insuficientes
Pela luta inglória
Pela incapacidade de sermos melhores

Dor
Até quando?


Vívian Marchezini Cunha - Belo Horizonte, 11 de Junho de 2007

27 maio 2007

Reminiscências



Remexendo em coisas antigas (e muito atuais), encontrei esse poema... Preciso voltar a poetizar!
Sol
Dia chuvoso
Música distante
Data melancólica
A cor do vestido
Meticulosamente escolhida
O faz presente
(O melhor presente)
Afasta as nuvens
Traz o sol
O ar puro
A vida
Assim é você...
Céu azul na minha vida nublada
Vívian Marchezini – Belo Horizonte, 04 de Janeiro de 2005.

13 maio 2007

Os meus, os seus, os nossos



Nesta última semana tenho pensado bastante a respeito de uma habilidade que o terapeuta deve ter: a habilidade de ser empático aos sentimentos de seu cliente, sem no entanto misturá-los aos seus próprios. Diria que isso é mais que uma habilidade, é uma arte. Porque é difícil pra caramba... Até falei com minha mãe que faria um curso de Ciências Contábeis, pois deve ser mais fácil mexer com o dinheiro dos outros do que com os problemas dos outros. Bem, quem me conhece sabe que eu não trocaria de curso ou profissão (ainda mais se ela envolve números!).
Nesse processo de se preocupar tanto com o bem estar do outro é muito fácil o terapeuta se esquecer de si mesmo. É normal perder o sono de madrugada e ficar pensando: "como eu posso fazer para ajudar o fulano, ou o sicrano? E com o beltrano, o que eu posso fazer?"??? Eu acho que não...
E então outro dia minha chefe lançou essa: "essa sua preocupação vai acabar quando você perceber que não pode resolver todos os problemas do mundo!". Minha arrogância estampada na minha cara... Minha dificuldade de lidar com frustrações, fracassos, perdas aparecendo em cada fio dos meus cabelos ruivos desbotados - até nos poucos brancos. E a frase da doutora está ecoando até agora nos meus ouvidos, esses que ouvem tanto as queixas dos outros e não têm muito tempo para ouvir as minhas...

Imagem: "Mulher no espelho", Pablo Picasso