06 fevereiro 2008

Humana



Eventualmente falo por aqui sobre uma habilidade necessária ao psicólogo, a empatia. A empatia é, para mim, a habilidade mais humana do psicólogo (ou humanizadora, ou até sobre-humana), pois envolve colocar-se no lugar do outro e aproximar-se do que o outro sente, a fim de compreendê-lo.

No entanto, nos últimos dias me deparei com uma situação diferente e muito incômoda. Estava diante da necessidade de desconsiderar meus próprios sentimentos em dada circunstância, em nome da empatia e do tratamento alheio.

Confesso ter me sentido violentada, ferida, sem vez. Em nome do outro, tive que passar por cima do que sentia e tentar compreender porque ele agia daquela maneira agressiva. Esquecer que aquilo me machucava, e me esforçar para perceber que aqueles comportamentos eram direcionados a mim, mas não tinham a minha pessoa como causa verdadeira.

Fiquei estraçalhada.

Busquei acolhimento e conforto em fonte segura. Psicólogos também precisam ser acolhidos. Parece batido, mas vi que ainda preciso repetir, como um mantra: psicólogo também é gente!

28 janeiro 2008

Verão nublado


Há dias chove quase sem parar.
Chuva fininha, daquelas que não exatamente atrapalham, mas incomodam.
As densas nuvens no céu impedem que o sol de janeiro se exponha glorioso como sempre o faz nesta época do ano.
Ao contrário, só uma parca luz que faz com que o meio-dia pareça seis da manhã.
Em resposta, meu corpo age durante todo o dia como se ainda fosse madrugada.
Preguiça.
Sono.
Vontade de tomar toddy quente e ficar debaixo do edredon.
Sopa de inhame.
Meias de lã.
A bicicleta sente minha falta.
Os tênis também.
Meus joelhos fazem "tec".
Saudade do tempo em que verão significava calor e pancadas de chuva ao final da tarde.

13 janeiro 2008

Catarina

Ontem a Catarina se foi. Catarina era a minha Cocker caramelo, tinha quase 8 anos de idade. Nas contas do dr. Luiz ela tinha aproximadamente 70 anos humanos. Já era idosa, mas ainda jovem para morrer.
Recentemente a Cat recebeu o diagnóstico de leishmaniose. O médico explicou que a eutanásia era o procedimento mais utilizado, mas sugeriu que tentássemos o tratamento. Era caro, mas resolvemos encarar. Cada irmão pagou o quanto podia, compramos remédios, coleira anti-mosquito para evitar o contágio, diariamente a Graziela dava a vitamina que garantiria a saúde da "Amiga".
O curioso é que a leishmaniose reverteu. Cat ficou curada, bem dizer. Mas desenvolveu um problema na coluna, em duas vértebras cervicais, que estavam produzindo muita dor e poderiam, no futuro, trazer prejuízos motores e ainda mais dor. Agora a eutanásia era o melhor procedimento.
E então eu me lembrei do dia em que ganhei a Cat (dia dos namorados), quando olhei bem pra ela e vi que ela tinha cara de Catarina e aqueles olhinhos que pediam amor; lembrei de quando a levei para cortar o rabinho e depois morri de arrependimento, pois ela sentiu muita dor; lembrei de quando voltei a BH de férias e a Cat fez tanta festa pra mim que até fez xixi no chão; lembrei das vezes em que passei por ela, a vi balançando o rabinho e não parei pra fazer um afago...
Sinto um pouco de culpa, porque a Cat era minha, mas desde que fui para Belém não ligava muito pra ela. Não dei o carinho que ela merecia, a atenção que precisava (Cat era super carente), os cuidados aos quais ela se acostumara quando eu ainda era sua mãe.
Então penso, mais uma vez, no quanto precisamos expressar nossos sentimentos, dar carinho enquanto isso é possível. A última vez que estive com a Cat foi um momento de carinho, raro momento.
Alguns podem dizer que ela nem tinha noção do meu carinho ou da falta dele. Mas eu acho que tinha sim...
Adeus, minha filha. Sei que agora você não está sentindo dor, nem frio, nem carência...

08 janeiro 2008

Toma lá, dá cá



A vida (ou Deus, ou as contingências) me prega algumas peças. Tira de mim coisas que eu quero muito, mas me dá logo em seguida uma nova e diferente oportunidade. Agradeço muito por isso, mas confesso que fico sem saber o que fazer!

O interessante é que parece que sou preparada antes para passar por essas situações, por meio de conversas, leituras, anseios...

Só tenho medo de não conseguir discernir o bom do ruim, o que quero do que preciso.

Aff!

01 janeiro 2008

Desejos e desdesejos



Quero em 2008:

compreensão; organização; disciplina; determinação; qualidade de vida; simplicidade; trabalho; clientes; estudo; esporte; alimentação saudável; dinamismo; disposição; alegria; fé; religiosidade; amigos; amor próprio; auto-estima; autoconfiança; segurança; saúde; dinheiro; realização de projetos; início de outros projetos; paciência; meu carro; quarto novo; emoção; viagens; harmonia; novos lugares; dançar; sorrir; brincar; amor; beijo; música; artes plásticas; livros; histórias; filmes; teatro; poesia; palavras; imagens; cores; paz interior; autocontrole; tolerância; leveza; sabores; saberes.

Deixo em 2007:

tristeza; falsas expectativas; desentendimentos; impaciência; ansiedade; desleixo; desânimo; isolamento; preguiça; desorganização; tensão; procrastinação; depressão; rancores; mágoas; egoísmo; sono excessivo; sentimentos velhos; coisas inúteis; dívidas; cigarros eventuais; carne vermelha; refrigerante; intolerância; "não consigo passar por isso"; gula; "não vai dar certo"; ganância.

"No aprimoramento sigo,
do passado sofrido transponho"
- P. G.

Imagem: Moça com livro - Almeida Júnior (sem data)

30 dezembro 2007

A minha vez




Esperar é estranho. Para uma pessoa como eu, que gosta de ter controle sobre as situações, não ter controle nenhum é quase uma violência. Aguardar a minha vez, resignada com o que foi determinado por outros, é realmente muito difícil.

Muitas pessoas dizem que eu transmito paz e calma. Meus maxilares sabem o quanto sou calma! Afinal, no descontrole, a única coisa que consigo conter são eles.

Meu coração dispara, minha respiração fica difícil (minhas narinas parecem estar tampadas), minha barriga dói, sinto-me tremendo por dentro. Já não fico ruborizada mais, e isso é uma vitória!

Repito um mantra: "Deus sabe o que faz". Ou "tudo posso Naquele que me fortalece". Minha religiosidade fica aflorada quando estou ansiosa. É uma maneira de garantir que o controle está nas mãos "de quem" sabe o que é melhor pra mim.

Funciona...

Imagem: http://www.sxc.hu/

24 dezembro 2007

Natal



Embora nem sempre isso fique claro, o Natal é a data comemorativa do nascimento de Jesus Cristo. Ainda que Jesus Cristo não tenha nascido de fato em um 25 de dezembro, tampouco há 2007 anos (ou 2008?), a data é válida pelo que simboliza.

Para mim, Jesus Cristo é amor e paz.
É compaixão aos que sofrem.
É perdão aos que erram.
É simplicidade.
É persistência.
É aceitação do que é diferente.
É a garantia de que algo de bom está guardado.

Por tudo isso, o que desejo neste Natal é Jesus Cristo a todos, com tudo o que Ele representa.
Boas festas!

15 dezembro 2007

Frase do dia



"Não há como fechar grandes acordos ou estabelecer bons relacionamentos sem aceitar uma dose de risco. Talvez você já tenha feito tal descoberta, mas ainda não acredita no que seus sentidos lhe dizem".

Sair da fila!

07 dezembro 2007

A Mangueira



Desde sempre a Mangueira estava ali. Sim, sempre, se eu considerar sempre uma época que começa antes de mim (mesmo que seja somente alguns anos antes de mim). Desde o meu sempre a Mangueira estava ali. Era mais magrinha antes. Os anos se passaram e sua circunferência foi aumentando (qualquer semelhança com a raça humana não deve ser mera coincidência!). E foi aumentando também sua altura, a amplitude de seus galhos, o poder refrescante de suas folhas e o sabor de suas frutas.

Nunca comi uma manga igual às que a Mangueira nos dava. Comia lá de cima, do alto de seus galhos, tirando a casca com os dentes mesmo, num retorno a uma época em que tudo era mais simples e inocente. Eu também era! Quando nosso quarto ficou pronto pedi que minha cama ficasse perto da janela, assim poderia comer manga direto do quarto nas tardes de castigo (eram raras, mas ocorriam)!

Subia na mangueira com a agilidade de um felino, mas ao tentar descer, chorava como a Nina, morta de medo de não conseguir sair ilesa de toda aquela altura. Mas sempre saí, a despeito de alguns arranhõezinhos...

Depois parei de subir na Mangueira. Já estava grandinha. Ela passou a funcionar como protetora - do calor, da luz, dos olhares indiscretos. Atraía alguns presentes de vez em quando: picapaus, o Tanuco (um tucano que vinha comer suas mangas), lindos passarinhos, rolinhas, morcegos. Ela estava sempre ali. Já não exigia a presença das crianças em seus galhos - ela sabia que já não havia mais crianças naquela casa, afinal se passaram quase trinta anos desde que a família veio morar em seu terreno. A Mangueira só pedia agora que apreciássemos seus frutos, sua sombra. Então se esmerava a cada primavera com frutas sempre numerosas e saborosas. O desejo da família de fazer um novo quintal foi sendo adiado ano após ano.

Mas neste ano os desejos se concretizaram. A Mangueira deu adeus ontem. Certamente chorou. Deve ter sentido dor, tristeza, sensação de dever cumprido. Criou uma família!

Me senti estranha ontem. Cheguei em casa e vi só os pedaços da Mangueira espalhados pelo quintal em obras. Meu quarto desnudo, desprotegido. Mangas pelo chão, as gatas miando, estranhando o ambiente, chorando pela Mangueira na qual passavam grande parte de seus dias. É uma nova configuração, um novo momento.

Sentirei sua falta, Mangueira. Todos nós! Obrigada por tudo...

02 dezembro 2007

Inseridas fora do lugar




Outro dia me deparei com uma imagem curiosa: uma parreira em plena rua Vanderlei, no bairro de Perdizes, São Paulo.

No charmoso bairro da maior cidade da América Latina, bravas uvas - verdes, novas, lindas - sobreviviam tal como se estivessem num parreiral em Toscana. Próximas ao ponto de táxi, observavam serenas a agitação de paulistanos e forasteiros num sábado que deveria ser tranqüilo.

Certamente se assustaram com o clique da pretensa câmera e com o sorriso de quem encontrou um tesouro, um elemento bucólico na cidade-formigueiro.

Belas uvas! Que lhes seja dada a oportunidade de amadurecer antes de serem exterminadas pelas frenéticas formigas cortadeiras!