21 outubro 2008

Reflexões à beira da lagoa



Era domingo. Não fazia sol, uma vez que as nuvens finalmente venceram a batalha naquela primavera estranhamente (extremamente) quente. O vento era fresco, mas não frio. Um dia perfeito para alguém que tem o corpo coberto de pelos e uma generosa camada lipídica sob a pele e que portanto sofria com o calor.

A Capivara morava num parque dentro da cidade. Era um parque especial, pois não havia grades lá. Só o que o separava do restante da cidade era a pequena faixa da lagoa, facilmente transponível para indivíduos que vivem originalmente em ambientes alagados.

Mesmo sabendo da possibilidade de sair do parque, essa não era uma atividade freqüente da Capivara. Gostava de sua comunidade, bastante populosa para um parque na cidade. Gostava das pessoas que passavam por lá, sempre respeitadoras. Achava até divertido ser fotografada por elas.

No entanto desde que seus filhotes nasceram a vida da Capivara tornou-se obrigatoriamente rotineira. Mamíferos têm essa desvantagem: a mãe precisa estar sempre por perto, a fim de garantir a sobrevivência dos filhotes. Sair ainda era possível, mas incrivelmente difícil. As conversas entre as outras capivaras giravam exclusivamente em torno do tema maternidade. A capivara macho já não era mais o mesmo da época da conquista. A Capivara sentia-se imobilizada, reduzida a um único papel: o de mãe.

Para a Capivara era complicado admitir isso. Era sua primeira ninhada, sentia que havia engravidado no momento certo: sentia-se madura, pronta para ter filhos. Sua ninhada havia sido comemorada entre as outras capivaras da comunidade, que não se cansavam de repetir que a Capivara havia nascido para ser mãe. Tudo conspirava para a felicidade, mas a Capivara não conseguia sentir-se completa com seus filhotes.

Ao mesmo tempo, de cada vez que imaginava o desmame dos filhotes e a possibilidade de viverem suas próprias vidas (muito antes do que estão acostumados os humanos), a Capivara arrepiava-se completamente e sentia-se ainda mais vazia.

Não sabia como resolver o conflito. Passara dias e dias pensando, enquanto observava seus filhotes brincarem na grama sob o sol quente.

Não chegou a conclusão nenhuma. Mas naquele domingo nublado e fresco pegou seus filhotes e atravessou a faixa da lagoa. Não comunicou a ninguém onde iria. Caminhou pela margem, cuidando para que os filhotes não caissem nos trechos mais poluídos da lagoa mal tratada pelos humanos. Andou, sem rumo. Chegou até um ponto em que era possível ver grande parte da lagoa, inclusive o parque.

A Capivara ficou ali, sentada às margens da lagoa, com os filhotes protegidos sob a sombra formada por seu corpo. Pessoas passavam, algumas paravam, mas a Capivara estava imóvel. Naquelas horas - sim, a Capivara passou horas fora do parque com os filhotes - após tantos pensamentos, tantas comparações felizes e infelizes, ficou muito claro para a Capivara que aquela era sua vida. E que se não houvesse escolha quanto ao tipo de vida que poderia ter, a escolha quanto a sofrer ou desfrutar das peculiaridades de sua vida era bem palpável.

Ao entardecer a Capivara voltou com os filhotes para o parque.

Segunda-feira seria um novo dia.

Vívian Marchezini Cunha - outubro de 2008
Imagem: retirada deste blog

13 outubro 2008

Para além de



Acredito que todas as nossas experiências nos transformam. Algumas transformações são mais marcantes que outras, mas de fato cada evento nos torna uma outra pessoa, diferente daquela que estava ali agora há pouco.

Penso também que quando experienciamos as práticas de uma outra cultura os eventos parecem mais fortes, por diferentes, produzindo mudanças mais facilmente identificáveis até depois de muito tempo...

Já faz mais de dois anos que voltei de Belém do Pará, e ainda hoje me pego comparando situações de lá e de cá (Minas), a Vivi que foi e a que está aqui hoje. Talvez isso ainda fique no meu repertório por bastante tempo!

Dentre as muitas coisas que me marcaram em minha vivência paraense, a experiência da fé e da religiosidade é uma que hoje me chama atenção. Ontem foi comemorado o Círio, chamado Natal dos paraenses.

O Círio é uma grande homenagem do povo paraense à Nossa Senhora de Nazaré, momento de fazer pedidos e agradecimentos. Antes de morar em Belém, via o Círio pela tv e ficava me perguntando como tantas pessoas se submetem ao calor e à multidão por conta de uma imagem. Achava mesmo absurdo e me perguntava se seria realmente necessário aquilo tudo, já que, para mim, Deus está dentro de cada um e portanto uma oração solitária, em silêncio, bastaria para que o pedido ou agradecimento pessoal fosse atendido.

Só passei a ter noção do que aquelas pessoas sentem caminhando por horas sob o sol escaldante de Belém em meio à multidão quando estive lá, fazendo parte da multidão. Fui de curiosa, para ver a imagem passar (era a procissão que acontece na noite anterior ao Círio, a Trasladação). Naquela época (2003, acho) eu estava sofrendo muito com o processo da minha dissertação. Precisava de alento, força, coragem, ação.

Quando a imagem passou por mim senti uma energia que nunca havia sentido antes. Meu corpo se arrepiou completamente e eu simplesmente comecei a chorar.

Não consigo explicar o que houve. Talvez aquela imagem simbolizasse exatamente o que eu precisava naquele momento. Talvez ela simbolizasse minha mãe, que não estava lá comigo e de quem eu sentia tanta falta. O colo, a força, a determinação, a aceitação das condições impostas, a busca por condições de menor sofrimento, o sacrifício por um bem maior.

Venho de uma família que sempre respeitou Maria, e por algum tempo a figura de Maria me era mais familiar e próxima que a de Jesus mesmo. Estar ali, naquele momento, diante de Maria (de seu símbolo), me trouxe de volta à minha família, de volta a mim mesma.

Penso que religiosidade é transcendência. A experiência religiosa vai além da compreensão racional e nos traz (ou deveria trazer) para perto do que é melhor, mais puro, maior.

A paz que venho sentindo nos últimos tempos está ligada à minha busca pela religiosidade, pela religação com o amor maior. Graças a Deus.

Ainda tenho tanto a conseguir! Tanto caminho a trilhar! Horas e horas sob o sol forte da vida, buscando compreender melhor aos outros e a mim mesma. Me transformando. E, semelhante à Carmen, esse é um caminho que é meu. Não deixo ninguém seguir por mim.

Imagem: Retirada deste site.

08 outubro 2008

Nova "crise"




Mais uma vez seduzida pelas endorfinas... Vamos ver quanto tempo essa "crise" vai durar! (Tá passando da hora de cronificar isso aí... antes que outras coisas - bem piores - se cronifiquem!)

27 setembro 2008

Sedução literária




Em minha fantasia os livros criam diversas situações para serem lidos. Colocam-se mais à frente nas estantes, empurram os adversários, jogam-se (quem sabe assim, no chão, conseguem ser tocados por seus leitores em potencial). Penso que alguns até falam... quantas vezes tive a estranha sensação de ter ouvido meu nome, bem baixinho, sussurado ao pé do ouvido ao passar por determinada estante na livraria!

Conseguem ser lidas aquelas obras que dão conta de identificar e se adequar às necessidades do possível leitor naquele momento, como fazem místicos charlatães que identificam sinais e dizem exatamente o que a pessoa - vulnerável - quer ouvir: humor, romance, tragédia, lirismo, longas descrições, falas curtas e diretas, explicações técnicas.

Sou particularmente sensível aos argumentos iniciais dos livros nas estantes - tanto as de minha casa, como as das diversas livrarias que insisto freqüentar. Volúvel, me rendo à sedução de vários livros, sustentando por muitas vezes relações múltiplas, por outras vezes trocando de livro antes mesmo de terminar a história com a qual me envolvera mais recentemente.

Confesso aqui que aconteceu de novo. Vinha tentando ler As Ondas, de Virgínia Woolf há uns dois meses, desde que terminei As intermitências da morte, de José Saramago. Mesmo tendo cedido às investidas de Woolf, não dei conta de manter a relação. Não é de suas palavras que preciso agora. Meu tempo não é de melancolia.

Exatamente por isso minha mais nova paixão (reincidente, notem) é Saramago, dessa vez com O Homem Duplicado. Ele me prometeu humor fino e reflexão. Vamos ver o que consegue me proporcionar de fato.

Enquanto isso, vou seguindo também com Can you keep a secret, Álvaro de Campos, Carpinejar, Rubem Alves... relacionamentos esporádicos, intensos, mas não necessariamente duradouros! E está ótimo assim!


PS: Pesquisando durante a redação do post encontrei esta coluna bem interessante sobre o estilo de Saramago. Confiram!

Imagem: Flickr

24 setembro 2008

Pieces of happiness



Escrevi isso em outro lugar, como votos de aniversário. Mas achei que ficou tão legal e expressa tão bem o que faz feliz esse tal aniversariante que decidi colocar aqui também. Espero que ele tenha gostado também! Segue lá...


Desejo a você
Cafunés inesquecíveis
Latidos carinhosos
Farinha láctea
Feijão novinho
Café com leite e pão com manteiga
Algumas notas maccartianas
Outras tantas palavras "lennianas"
Sabedorias de pai
Carinho de mãe
Fórmula 1 fraterna
Ar condicionado
"Meninas" felizes e lindas
Aquele 68
Batidas perfeitas
Queijo branco com açaí
A paz da realização pessoal

Vívian Marchezini Cunha - 24 de setembro de 2008 - Montes Claros
Imagem: By Me! Arquivo pessoal

23 setembro 2008

Livro velho

To the one I (still, or forever will?) love.
O amor não termina - esquece de começar. Não explicar é decorar. O amor que não esqueço é justamente o que não sei os motivos do seu fim. O amor que permanece é aquele que não sei como começou.
Procuro o que não tem lugar.
Trecho de Chaleira do Mar. Em Carpinejar (2006), O amor esquece de começar: Crônicas.

16 setembro 2008

Saber onde

Para a amiga Fla
Ah, não estar parado nem a andar,
Não estar deitado nem de pé,
Nem acordado nem a dormir,
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,
Resolver a equação desta inquietação prolixa,
Saber onde estar para poder estar em toda parte,
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as
ruas,
Saber onde

Trecho de Passagem das Horas, 1929. Fernando Pessoa, em Poemas de Álvaro de Campos, Obras poéticas IV.

12 setembro 2008

Better

O velho remédio funcionou.
Me vesti de atleta e fui dar uma voltinha na Lagoa da Pampulha.
Quarenta e cinco minutos de um trotezinho revigorante.
Viva o repertório ampliado!

Dia estranho



Menos atividades que o comum, menos energia que o habitual.

Vou dar um jeito nisso agora mesmo.

Até logo!
Imagem: Lazy Ninica, Deoris Sartrkin (2008)

06 setembro 2008

Mais próxima do centro



Tenho andado sem assunto para o blog. Pensando muito na minha vida, no aspecto profissional principalmente, fazendo planos e buscando mudar alguns comportamentos que podem me atrapalhar a realizar tais planos.


Há uma semana cheguei do congresso de Análise do Comportamento, em Campinas. Voltei cheia de idéias, de planos, de vontade de me dedicar ao meu aprimoramento. Esses congressos sempre geram esse efeito em mim. Costumo ir exatamente por conta dele!


Por outro lado - mas não oposto - voltei feliz também por ter reencontrado amigos, conhecido pessoas que sempre quis conhecer, por ter revisto meu orientador (senti um medo danado!), por me sentir parte de um grupo.


É bom perceber que estou amadurecendo profissionalmente, que meu artigo não é mais tão aversivo pra mim e que finalmente vou conseguir terminá-lo, que novos trabalhos estão sendo bem recebidos pela comunidade.


Já não sou aquela menina deslumbrada do primeiro congresso, nem a sonhadora do segundo, tampouco a desesperançada do terceiro. Me sinto mais séria, mais serena, bem menos ansiosa. Que bom!


Imagem: Flickr