07 março 2011

Úmido

Quatro Girassóis Colhidos - Tela 600 x 354 - OST - 1887 (VINCENT VAN GOGH)

Naqueles dias chuvosos o céu branco reproduzia a luz fria da lâmpada fluorescente-hipnotizante, levando a mulher ao sono constante, mesmo depois de dormir por horas a fio.
As janelas necessariamente fechadas impedindo que a umidade estragasse os móveis novos e o chão do apartamento alugado impediam também que a mais leve brisa entrasse e trouxesse algo de vida para a casa.
Nem mesmo as flores recém adquiridas conseguiam dar à casa cor.
Os únicos sons do ambiente vinham das gotas da chuva incessante no telhado vizinho e dos suspiros da mulher, impaciente com a clausura imposta pelo clima típico do mês de março.
Sentia-se como um fungo.
Desejava uma casa na praia, a presença do sol, da brisa, de movimento, de cores outras além do branco.
Desejava a liberdade da integração com o mundo.
Era chuva demais para uma mulher tão girassol.

05 janeiro 2011

Straight

Imagem: Arquivo pessoal

Então é isso. Sejamos claros; é melhor que admitas alguns fatos:
Nada do que buscas encontrarás.
Qualquer fagulha de esperança será falsa. Vã. Fogo fátuo, produto dos dejetos de seu passado.
O otimismo é uma ilusão. Seu efeito é temporário, e mascara o pior, o real.
Estás fadado a um ciclo. Diante do real buscarás novamente a ilusão. Então encontrarás outra vez o real, e fugirás de novo para a ilusão...
Sucessivos caminhos e descaminhos.
Perdido.

A realidade dói.
Acostuma-te.

28 dezembro 2010

De lá até aqui

Imagem retirada deste blog

2010 começou com uma decisão. Só começaria assim. Não havia mais tempo para não-seis, quem-sabes, esperos. Encararia qualquer decisão, desde que tivesse esse caráter. Era necessário direcionamento. E a direção dada foi a do coração, do caminhar junto, para sempre (?).
Mas nem todas as decisões (ou quase nenhuma) dependem exclusivamente daqueles diretamente envolvidos. E outros aspectos - importantes, e juntos, mais fortes - fizeram com que a decisão fosse revogada.
Vinte e quatro horas de lágrimas naquele que estava marcado para ser o dia mais feliz de sua vida. Uma Macondo emocional: chuva e solidão eternas.
Alta produtividade para preencher o vazio que o grande amor lhe deixara: o trabalho era seu maior recurso naquele momento. Permitiu-se também ser salva por forasteiros de passagem, que assim como vieram - de modo absolutamente inusitado - se foram. Bem que dizem que algo só dura o tempo de sua utilidade ou missão. Assim foi.
Foi aos poucos entrando em contato com alguém que vinha evitando há anos, num paradoxo: descobrira que a melhor maneira de fazer com que seus pensamentos parassem era exatamente dar-lhes vazão. A liberdade acalma. E sua própria companhia, antes tão amedrontadora por não saber exatamente quem era, agora era a melhor de todas, imprescindível.
Teme ter somente sua própria companhia pelo resto da vida. Teme ser insuficiente para si mesma. Teme também se perder novamente caso encontre outra pessoa. Mas aprendeu - não neste ano, mas cumulativamente ao longo desses trinta e um - que o medo é só mais um sentimento.
Feliz 2011!

27 novembro 2010

La mia lettera a Julieta

1932 – La Lecture (Woman Reading). Imagem retirada daqui.

Querida Julieta,
Vivi tudo o que era possível nas condições que tinha: fui em busca do meu amor enquanto ele era apenas uma possibilidade, lutei por ele quando era uma certeza e abri mão quando ele passou a exigir de mim forças que eu já não tinha. Não poderia jamais dizer "what if" - e se. Mas vira e mexe me pergunto: e se tivesse sido diferente? E se ele tivesse "cruzado oceanos" por mim, por nossa história? E se no lugar do silêncio eu tivesse hoje o som de seus acordes?
Sei que nunca vou saber a resposta, Julieta. Me ajude a assumir o não-sabido!
Obrigada...
V.

06 novembro 2010

Bolos, borboletas e outras alegrias

Imagem retirada deste blog


A Vanessa da Mata acabou de lançar um novo cd intitulado Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias. Fui colocar o título do post igual ao do cd e olha o que saiu: Bolos, borboletas e outras alegrias. História de reforçamento é uma coisa linda mesmo!
Bem, a revista TPM está sorteando um cd da Vanessa da Mata para a melhor resposta à pergunta: "Qual a sua maior alegria e por quê?" Eu respondi à pergunta, e resolvi postar aqui também:
Minha maior alegria é constatar que estar comigo mesma pode ser uma grande experiência, e que ainda assim isso não me faz querer estar distante dos outros. É descobrir que a minha paz está bem aqui, comigo, agora.
E aí eu fiquei doida pra saber qual é a maior alegria de cada um de vocês, amigos-leitores. Qual é? Soprem!

13 outubro 2010

Beija-flor

Imagem: Richard Dumoulin @Flickr

Diariamente ele vem
Meio afoito
Pronto para dar beijos sem fim
É lindo!
Chego a ajeitar os cabelos, umedecer os lábios.

Mas a decepção é dupla:
Não sou flor
Não é homem.

Voltemos à realidade...

12 setembro 2010

Autoperguntas

Imagem do SXC



E a pergunta que não quer calar é: por que tudo tem de ser tão pesado? Ou talvez, recolocada: tudo tem de ser tão pesado?
Dentre as alternativas, também dúvida: aceitação ou questionamento? O que tornaria as coisas mais leves?
A resposta está aqui ou lá? Por que a busca é sempre lá, e quase nunca aqui?

29 agosto 2010

A vida secreta das palavras

La Vida Secreta de las Palabras. Isabel Coixet, Espanha (2005).

Estou encantada com a delicadeza com que a diretora de "A vida secreta das palavras" aborda temas tão fortes como o sofrimento de alguém que foi marcado - de diversas formas - pela guerra.
O filme é de uma beleza impressionante, não tanto pelas imagens, mas pelas relações estabelecidas entre os personagens e dos personagens com as próprias vidas. Difícil descrever - difícil colocar em palavras!
O interessante é que ontem eu havia dado uma aula sobre Estresse Pós-Traumático a uma turma de pós-graduação. É um tema tão pesado, tão delicado, e sinto que não conseguimos - nem eu nem os alunos, que pareciam cansados e impacientes para aquela aula de sábado à tarde terminar - entrar em contato com o sofrimento que envolve uma pessoa que passou por um evento traumático e que sofre com as revivências ao longo da vida. Um terapeuta que não consegue ter a dimensão do sofrimento de seu cliente não consegue ajudá-lo, por melhores que sejam suas técnicas. E foi isso que fizemos ontem: exposição de técnicas.
Vim pela estrada com esse incômodo, o de não ter tratado do tema com a sensibilidade que ele requer, e me deparo à noite com "A vida secreta das palavras", abrindo meus olhos e ouvidos, de novo, para o sofrimento e as estratégias dos personagens para lidar com ele.
Excelente filme para refletir e discutir sobre trauma, esquiva experiencial, a importância da fala, de vínculos. Excelente filme para se aproximar do sofrimento do outro.
Comentários interessantes sobre o filme neste site.
Vale notar que a diretora Isabel Coixet foi também quem dirigiu "Minha vida sem mim" (2003), lindíssimo, tão sofrido e belo quanto "A vida secreta..."

07 agosto 2010

Playing for (my) Change

Imagem encontrada por aí na web, sem referência.


Cansada de tantas coisas... A diferença é que agora não quero mais me conformar. Preciso de mudança. Já.


Mais imagens lindas no Flickr. Busque por "change". Todas com direitos reservados...